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domingo, 27 de abril de 2014

O filme “Ela” e nossos corpos

Atenção: Não é minha posição com relação a este filme, mas achei os argumentos e defesa dele bem interessantes (princípio dialético)


Por Gabriel Brisola in http://ultimato.com.br/sites/jovem/2014/04/25/o-filme-ela-e-nossos-corpos/




Cartaz do filme “Ela”

“Ela” é um filme curioso. Levou o Oscar de melhor roteiro e angariou algumas dezenas de prêmios em festivais. Está rodando em alguns cinemas no Brasil por essas semanas. Apesar de ainda estar no espectro hollywoodiano de narrativa – o desfecho não mente – e no que parece ser a absorção do “indie” pela indústria – os personagens não mentem -, “Ela“ levanta questões fabulosas. Aí está o trunfo do filme: ele é mais feliz em levantar questões do que resolvê-las, como aparentemente faz. Minha função aqui não é fazer uma crítica do trabalho, mas sim pensar as questões suscitadas e ver como elas atingem nossa fé. Mas antes, um resumo:

Theodore trabalha em uma empresa escrevendo cartas para pessoas que não têm tempo hábil: ele escreve para a esposa enquanto o marido está em uma viagem de negócios, para o aniversário de um ente querido… Ele não transcreve cartas, ele as escreve como se fosse mesmo o remetente que o contratou para tal. Em uma rotina solitária, ele se vê pensando na ex-mulher e em como agora estão em processo de divórcio. Ele sente falta da ex e parece não lidar muito bem com o fato. Evita encontros com os amigos e se vê sozinho em seu apartamento jogando vídeo game ou à noite fazendo sexo a distância por um dispositivo de áudio com alguma desconhecida aparentemente solitária.

É aí que uma novidade aparece: ele compra um sistema de inteligência artificial, “mais que um sistema, uma consciência”. E assim ele começa uma relação com Samantha, um sistema operacional altamente desenvolvido que, como o comercial diz, é uma consciência. Pensa, processa as situações, os dados e os sentimentos. E, como era de se esperar, Theodore começa um relacionamento amoroso com Samantha, que aparentemente preenche todas as suas necessidades e sonhos de mulher.

Samantha sente e responde aos sentimentos suscitados pelo protagonista e por ela mesma. A narrativa se desenrola sob essa perspectiva: uma relação com um ser completo, mas desprovido de corpo.

É significativo que o pôster do filme tenha como imagem Theodore. E é significativo que a primeira relação sexual do personagem com Samantha seja idêntica à relação que ele manteve com outra mulher, por áudio. Creio que não estamos longe de nos relacionarmos com Samantha. Na verdade, nós já nos relacionamos com ela.

Nossas conversas no Skype, por telefone, por Facebook, WhatsApp e etc, flertam com a ideia de que estamos conversando com nós mesmos – a hipótese do filme – ou com a ideia do outro em nós. O outro é sempre feito de uma projeção intensa e isso não é novidade, mas talvez o modo como nos comunicamos tem potencializado essa projeção. Conhecer e se relacionar com o outro é sempre um horizonte, nunca um lugar de chegada. E parece que falar consigo mesmo vai continuar sendo a regra no futuro próximo.

Posso parecer pessimista, mas a promessa das redes em unir as pessoas nunca me soou uma embarcação muito segura. Creio não estar sendo nostálgico nem sublinhando discursos conservadores. Os meios de comunicação realmente nos trouxeram coisas fabulosas – sou o primeiro a atestar -, mas não sou muito esperançoso em relação a certos aspectos.

E aqui gostaria de apontar um outro horizonte para pensar a questão. É relevante que nas Escrituras o corpo tenha um lugar importante. O “verbo se fez carne” para andar entre nós, Cristo ressurgiu em corpo, o corpo é habitação do Espírito Santo, Paulo ensinando que o sexo é a união de dois corpos, o corpo de Cristo na ceia, o pregador falando da decadência do corpo na velhice em Eclesiastes… Mais que uma negação do corpo, como nosso Cristianismo tem feito, a Bíblia aponta a importância do mesmo.

O corpo é porta para o conhecimento e contato com o mundo e o outro. Existe um mistério no corpo, no entrar em contato com o mundo, as coisas e os outros, com e através do corpo. Quem já sentiu saudades, depressão, euforia, amor, sabe exatamente onde a sensação se encontra no corpo. E mais ainda, existe um mistério do qual os místicos e santos falam: do corpo em contato com Deus.

Talvez o corpo seja mesmo importante nas nossas relações. Creio eu que sim. E talvez necessitemos de um novo pensamento ou um resgate do pensamento bíblico em relação ao corpo. Não cabe mais pensar o corpo apenas como adjacência, mas agora como uma estação a partir da qual a vida orbita. Espero que possamos cumprir com essa responsabilidade.


• Gabriel Brisola tem 24 anos, é formado em jornalismo e fotógrafo.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Por que Ela, de Spike Jonze, é um filme tão significativo para a nossa geração?


kibado do http://pensarenlouquece.com/porque-ela-spike-jonze-filme-significativo-nossa-geracao/#more-5686
O ideal de todo cinéfilo deveria ser a oportunidade de assistir a um filme sabendo o menos possível a respeito de sua história. Página em branco, sem expectativas, mergulhando em uma trama e envolvendo-se com ela feito como uma criança que tateia objetos desconhecidos à sua volta, encantando-se com cada nova descoberta.
Este post não será uma resenha. Afinal, há dezenas de textos comentando a história do filmedirigido e roteirizado por Spike Jonze, com atuações de Joaquim Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara e Olivia Wilde. Aqui, me limitarei a compartilhar algumas ideias, impressões e relações que fiz após ver uma obra repleta de entrelinhas para serem discutidas. E recomendo, aliás, que você só leia este post após ter visto Ela.
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Tudo na vida é uma questão de expectativas. Eu, admito, já cometi o equívoco de construir uma imagem idealizada de uma pessoa que conheci online: foi o efeito colateral após ver algumas fotos e trocar mensagens espirituosas, sagazes, maliciosas. Nem sempre a química virtual se repete na vida offline, mas ao analisar retrospectivamente esse encontro mal-sucedido, hoje sei que talvez as coisas tivessem sido diferentes caso não tivéssemos alimentado expectativas desmedidamente juvenis de uma pessoa pela outra.
Mas enfim, citando um diálogo de Ela, o fato é que o passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos. Com o passar dos anos, lembranças tendem a ser idealizadas e nossas recordações paulatinamente tendem a ser recriadas de acordo com os desígnios nem sempre conscientes de nossa memória seletiva.
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Há muitos anos assisti a um episódio de Star Trek no qual os tripulantes da Enterprise se deparam com um ser sem corpo físico. Quando esse ser descobre como é a condição humana, ele lamenta por nós: “Tenho pena de vocês, humanos. Deve ser muito triste viver com essa limitação física.”
Creio que a frase era mais ou menos assim. Memória às vezes prega peças na gente.
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Ano passado li uma notícia que me deixou perplexo: “Por que os jovens japoneses pararam de fazer sexo?”. Um dos dados citados nesta matéria do The Guardian é uma pesquisa, realizada em 2013 pela Associação Japonesa de Planejamento Familiar, segundo a qual 45% das mulheres de 16 a 24 anos não demonstravam nenhum interesse em contato sexual, assim como cerca de 25% dos homens entrevistados.
Outra matéria sobre o Japão, publicada no site da BBC, também fala dessa geração de japoneses denominada de “herbívora”, por ser passiva e sem desejo carnal. Um dos entrevistados, que tem uma namorada virtual em um jogo da Nintendo, deu uma declaração bastante significativa: “Na escola, você pode ter relacionamentos sem pensar sobre casamento. Com namoradas de verdade você precisa sempre considerar se vai casar. Então eu penso duas vezes antes de namorar uma ‘mulher 3D’.”
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Em uma entrevista a Conan O’Brian, Louis CK fez um desabafo antológico sobre como os avanços tecnológicos estão nos tornando cada vez mais mimados. Ele relata a história de uma viagem que fez em um avião equipado com internet a bordo. A conexão, porém, caiu no meio do voo. Um comissário a bordo pediu desculpas pelo ocorrido, e um passageiro sentado a seu lado reclamou: “Pfff… Isso é conversa fiada.” Louis CK cita outras reclamações corriqueiras sobre motivos como atrasos de voos e poltronas que não reclinam, e dispara:
Atraso, sério? Nova York até a Califórnia em 5 horas? Costumavam fazer esse trajeto em 30 anos, e um monte de gente morreria nesse período ou teria filhos. Você estaria com um grupo totalmente diferente de pessoas quando chegasse lá! Agora você assiste a um filme, solta um barro e está em casa! Todo mundo, em todos os aviões, deveria ficar constantemente falando: ‘Oh meu Deus! Uau!’ Você voou pelos ares como um pássaro, você fez parte do milagre de humanos voando! Você está sentado em uma cadeira no céu! Voando! É fantástico!
Vivemos tempos fantásticos, mas as pessoas parecem nunca estar satisfeitas – vide a timeline do Twitter, aquele mural de muxoxos e mimimis sem fim. Queixam-se do trabalho, de relacionamentos, do que está passando na TV (como se estivesse sob a mira de um revólver que os obrigue a ver determinado programa), das pessoas que seguem (afinal, dar unfollow é algo muito difícil de se fazer)… Neste mundo de expectativas irreais, em que ideais de beleza são esculpidos com photoshopadas inatingíveis e a timeline do Facebook é povoada por versões artificiais de nossas próprias vidas, com fotos instagramadas postadas para angariar likes alheios, como encontrar satisfação?
Viver bem é a fina arte de gerenciar expectativas.
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Amar é se interessar pelo outro, querer saber o que ele fez, compartilhar ideias, impressões, coisas tristes e engraçadas que aconteceram durante a trajetória de um dia: é a parte verbal do amor, o entrosamento intelectual que independe da atração física. Mas amar também é compartilhar silêncios ou suspiros; é a intimidade que faz com que nos sintamos confortáveis na presença do outro prescindindo de palavras.
Amor platônico é um amor que desconhece imperfeições. Não existe mau hálito, sexo ruim, crises de ciúmes, chulé, discussões por causa de pia suja ou tampa de privada, DRs. Por existir somente no plano dos sonhos e pensamentos, costumo definir amor platônico como um amor que só é vivido do pescoço para cima.
Já Charlie Kaufman, roteirista de dois filmes dirigidos por Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich e Adaptação), cunhou uma definição menos edificante: “O amor nada mais é do que um agrupamento bagunçado de carência, desespero, medo da morte, insegurança sobre o tamanho do pênis e a necessidade egoísta de colecionar o coração de outras pessoas.”
Definições, todavia, são tentativas de se explicar algo que vai muito além das palavras. E o fato é que amar não é para amadores. Joseph Campbell, em O Poder do Mito, cita o budismo ao afirmar que o amor é o ponto de combustão da vida. Como a vida é dolorosa, assim também é o amor. Amar é correr riscos. Ou, citando outro diálogo certeiro de Ela, uma maneira socialmente aceitável de insanidade. Seja amando um homem, uma mulher, um dos mais de 50 gêneros além de masculino e feminino que agora podemos escolher no Facebookou, quem sabe em um futuro a curto prazo, um sistema operacional.
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